Cultura e Território

No último sábado, 23 jovens foram detidos num shopping de Guarulhos, após a polícia ser acionada. Um gerente afirmou ter visto pessoas serem pisoteadas. Uma mulher chegou a ver jovens com revólveres. Eles cantavam, em uníssono, uma música sobre maconha. Alguns lojistas fecharam as portas mais cedo. Houve pânico entre os frequentadores. No entanto, nenhuma droga foi apreendida, assim como nenhuma arma, nenhum furto foi registrado e ninguém se feriu. O encontro havia sido combinado num evento do Facebook: 10 mil inscritos, mas depois de deletado (o criador do evento disse que teve medo de que ‘sobrasse pra ele’) apenas 200 compareceram.

Quem acompanhou os títulos das reportagens sem analisar os fatos, de início, ficou chocado com a falta de segurança do país, onde nem dentro do Shopping estamos seguros, segundo alguém disse. Por outro lado, os auto-intitulados portadores do senso crítico certamente verão neste caso a demonstração explícita do racismo e do preconceito da “Elite” contra os jovens da periferia. Os 23 detidos foram liberados. Novos eventos já foram confirmados em outros shoppings. Os lojistas estão desesperados, e pedem ajuda à Secretaria de Segurança.

Muito provavelmente os haters da classe média (que paradoxalmente são em sua maioria da classe média também) terão motivos para rechaçar ainda mais a “Elite”. Num texto publicado hoje, no Estadão, o título irônico, “Funk assusta shopping” fazia uma antítese aos títulos das outras reportagens. O texto é muito elegante e sutil. Mas o que se pode compreender, após uma leitura atenta, é que a autora é partidária ou pelo menos simpática, ao pensamento de esquerda. E como boa esquerdista, tenta enxergar o mundo sob a visão distorcida do credo que segue.

O notável sociólogo Robert K. Merton, em Social Theory and Social Structure, cunhou o termo “profecia autorrealizável”, conceito que fala a respeito das atitudes e crenças que as pessoas adotam e que acabam por influenciar o comportamento delas próprias e dos demais, confirmando suas crenças a priori. Por exemplo, sabemos, ou fingimos acreditar que a “Elite” é preconceituosa, racista, odeia pobres e faz questão de frequentar lugares exclusivos. Quando um grupo de jovens de periferia decide entrar num shopping fazendo algazarra e as pessoas se sentem assustadas, é como se assinassem o seu atestado de culpa. (ainda que só descobrissem que não havia motivo para temer depois do ocorrido.) “Viu só? Os garotos não estavam fazendo nada demais e chamaram a polícia!” Se tivessem sido roubados, isso seria um outro problema, para qual também teriam uma resposta pronta. Mas como não houve crime, o pânico foi infundado, logo, foi preconceito.

Me lembro que quando foi lançado o livro Falcão – Os Meninos do Tráfico, baseado no documentário homônimo, um grupo de jovens aparentemente moradores de favela, quatro ou cinco no máximo, entraram na livraria em que eu estava, dentro do shopping mais movimentado do Rio de Janeiro. Eles vieram em silêncio em direção aos livros mais vendidos. Um deles tomou um exemplar do livro e os outros se amontoaram atrás das suas costas e espiavam, sobre seus ombros, cheios de reverência um livro que falava sobre a realidade que eles conheciam de perto, contada por alguém que falava a mesma língua que eles. Eu fiquei bastante tocado com aquela cena, e pensei como seria maravilhoso se um vendedor viesse falar com eles e deixasse-os à vontade, sentados no sofá. Mas não, isso seria querer demais. Já não foram expulsos e nem causaram tumulto. O que está de bom tamanho.

Mas é interessante traçarmos aqui um paralelo entre as duas situações: de um lado, centenas de jovens pobres com roupas de marca entrando juntos em um shopping assustando as pessoas; e do outro, meia dúzia de pobres, mal vestidos, entrando provavelmente pela primeira vez numa livraria. Muito se discute sobre o que fazer para combater a pobreza e melhorar a educação do país. Chegam a defender que a primeira é a consequencia da falta da segunda. O problema é que o discurso foi monopolizado pela esquerda e distorcido pela dicotomia mesquinha que alça os brancos esquerdistas intelectuais como os guardiães de tudo o que há de mais belo e nobre na humanidade, o povo como uma donzela em apuros, e os poucos gatos pingados que ousam pensar fora da cartilha esquerdista, são tratados como dragões gigantescos e furiosos.

São esses nobres paladinos que, curiosamente, defendem com unhas e dentes o funk como uma expressão cultural legítima ao mesmo tempo em que não tem pudores em criticar as boates que a “Elite” costuma frequentar. Esta síndrome de Golias faz parecer que tudo o que é do pobre, da camada vulnerável da sociedade, pertence à categoria do belo, nobre e justo, e tudo o que vem da classe média (que no Brasil não é tão rica assim…) é fútil, mesquinho e fugaz. Assim, se um comediante branco faz uma piada, ele deve ser julgado e condenado à prisão, porque as risadas que ele provoca estão diretamente relacionadas à onda de crimes. Mas se um traficante negro canta uma música sobre estupros ou assassinatos, não nos cabe julgá-lo, afinal, ele está falando sobre a realidade em que vive, na linguagem que  entende, e tolher isso seria elitismo.

Enquanto isso, milhares de jovens de favelas e periferias do Brasil gastam seus poucos salários com coisas inúteis e tentam ser aceitos por um construto (a sociedade) criado e alimentado por uma elite pseudo-intelectual que distorce os fatos e os pinta com rancor e revanchismo, na tentativa de instaurar a luta de classes (se ela não existe, alguém tem que criá-la!).

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Redenção

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Como um louco que deseja
Mais do que a si mesmo
Há muito tempo eu vago a esmo
Esperando que você me veja

No meu peito uma serpente
Fecha a minha garganta
E diz que não adianta
Ser tão inconsequente

Mas eu te quero mesmo assim
É tão grande o meu desejo
Que do Sol eu me protejo
Com as suas asas sobre mim

Não passo de um velho monge
Que tantas vezes vendeu a alma
Com o tempo aprendi a ter calma
E devagar, cheguei tão longe

No palco encenam os vultos
E do camarote ao longe assistem
Meus eus que em pedaços resistem
Em meio à febre e ao tumulto

A serpente dos lázaros apertava
Deixando meu coração em prantos
Me contorcendo pelos cantos
Meu Ego enfim tombava

Não lutarei contra a minha sorte
A Esperança é um tempero
Que adoça o veneno-desespero
Mas o bálsamo é um só: o Anjo da Morte.

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Hipocrisismo

Considere as duas imagens abaixo:

 


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Responda sem pensar: qual dos dois indivíduos acima tem o maior potencial de ser discriminado?

É muito provável que você tenha usado a si mesmo como um parâmetro para julgar estas duas pessoas. Não só suas próprias características particulares, mas incluindo também suas ideias. Então, se você for uma pessoa pobre ou de pele escura, talvez tenha se identificado mais com o rapaz. Ou quem sabe, se você for esquerdista ou ativista de direitos das minorias étnicas. Se você for feminista, talvez ache que a moça de topless sofra mais preconceito, não só por ser mulher, mas por andar com os (lindos…) seios à mostra. Ou mais ainda por ser feminista. Sendo democrático, você poderia simplesmente dizer que ambos têm iguais chances de sofrer preconceito (e dependendo do meio no qual você estiver inserido, quem sofrerá preconceito é você, por ser relativista. Principalmente se for homem, branco e de classe média).

Aonde eu quero chegar, você se pergunta? Quero propor uma reflexão sobre os ditos movimentos que se dizem igualitários e que andam tão em voga ultimamente. A moça da foto acima é uma ativista do feminismo, e esta foto foi tirada durante o evento Marcha as Vadias. O movimento surgiu como uma resposta ao policial canadense que recomendou às mulheres que evitassem vestir-se como “vadias” para não serem estupradas. O rapaz acima foi condenado por ter estuprado uma menina de nove anos. Na cadeia, ele foi brutalmente violentado, diversas vezes. Contraiu o virus da AIDS. Depois de 2 anos e 7 meses no Inferno, ele foi solto. Descobriu-se que ele era inocente, afinal. Teve crises de depressão, afundou-se nas drogas, e nunca mais conseguiu manter-se num emprego.

A legitimidade dos protestos feministas hoje partem da premissa de que vivemos na “cultura do estupro”. Ao se aconselhar uma mulher a não se vestir de determinada forma em certos lugares afim de se reduzir as chances de sofrer algum tipo de assédio ou violência, estamos culpabilizando as vítimas. Isso é o que as feministas afirmam. Não há dúvidas de que o estupro é um crime abominável, que deixa consequências físicas e psicológicas que precisam ser tratadas. E eu não consigo imaginar o quão grande é o sofrimento e o constrangimento de uma mulher que foi violentada, ao depor na delegacia, ter que responder sobre como ela estava vestida e coisas do tipo. Isso é uma violência contra a dignidade humana. É perfeitamente natural que a vítima, estando fragilizada, ao se sentir completamente desamparada por um órgão que tem por obrigação acolhê-la e confortá-la (além de se certificar que o criminoso seja preso o mais rápido e pelo máximo de tempo possível) busque amparo em outros lugares, como por exemplo, grupos de pessoas que passaram por coisas semelhantes. O problema é que, tendo uma motivação essencialmente emocional, a razão é deixada de lado. E no auge do desabafo, tentando se eximirem da culpa que lhes foi falsamente atribuída, elas dizem “foi a sociedade que me estuprou”. A força desse protesto denuncia o horror de sofrer violência e se sentir abandonada, julgada, humilhada. A nível emocional, serve quase como uma catarse. Ou, uma forma de restabelecer a dignidade dessas mulheres. A isso, meu apoio incondicional. Mas quando analisamos as coisas de forma racional, vemos que o feminismo se atrapalha.

O grande problema é que se tem utilizado uma motivação emocional para questões que só podem ser resolvidas com a razão. Se os protestos feministas terão um efeito terapêutico nas mulheres, ótimo! Que façam muitas, e muitas marchas. Quando uma mulher sente que a sociedade a estuprou, isso parte da experiência individual dela. É a forma como ela se sente. Mas ela não está pensando racionalmente. Logo, não quer dizer que isso seja literalmente verdade. Ela foi violentada por um criminoso, e o Estado falhou em conceder-lhe o amparo necessário. A questão aqui é muito mais politica do que social ou sexual.  É claro que existe machismo. O problema é que por ser algo inerente à subjetividade de cada um, é   difícil definir até que ponto ele fere a dignidade da mulher. Ora, para os ditos machistas e conservadores, o que fere a dignidade da mulher é o feminismo atual, que rejeita o papel tradicional que a mulher tinha dentro da estrutura familiar. A meu ver, isso é uma questão muito mais de coletivismo X individualismo, do que de machismo X feminismo.

Se roubam meu iPad perto da linha do trem, num sábado de madrugada e o delegado me diz que eu estava “pedindo pra ser roubado”, eu posso até me sentir injustiçado e desamparado, já que o trabalho dele é tentar capturar o criminoso e não me julgar. Mas daí a afirmar que a sociedade me roubou é um pouco de exagero, não? Estou usando um exemplo fútil porque não evoca sentimentos tão densos, então fica mais fácil de pensar racionalmente a crítica que eu estou levantando ao feminismo atual. O feminismo se propõe como um movimento por direitos iguais. Mas se isso fosse verdade, ao invés de vermos mulheres protestando pelo direito de andar de topless nas ruas, veríamos protestos contra todos os tipos de injustiça, como pessoas que foram acusadas falsamente ou que são vítimas de estupro dentro dos presídios. Essa, aliás, é a maior prova de que não existe a cultura do estupro (a não ser dentro da cadeia): os criminosos sexuais são os mais torturados e violentados dentro da prisão. Se a sociedade é machista e opressora e sempre culpabiliza a mulher, porque todos têm tanto ódio dos estupradores?

 

O que precisamos, de verdade são:

1) Tratamento decente nas delegacias, com atendimento com psicólogos e assistentes sociais, tanto no registro da queixa quanto no acompanhamento após o mesmo.

2) Uma polícia bem treinada para atender as vítimas e averiguar a veracidade das acusações com precisão e SEM CONSTRANGÊ-LAS

3) Penas rigorosas para crimes hediondos, independente da faixa etária

É claro que existem muito mais coisas a serem mudadas neste país. Mas em termos de crimes sexuais, essas três medidas, a meu ver são as mais urgentes. Quanto ao feminismo… na minha opinião, ele pode ter sua eficácia terapêutica a nível emocional, mas já deixou há muito tempo de ser um movimento sério. Mulheres são estupradas e condenadas a morte por isso em países árabes… enquanto no Brasil as feministas protestam contra ovos de páscoa, comerciais de xampu, etc.

E antes que venham me xingar, olhem pra foto do rapaz. E pensem. Racionalmente.

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O Paraíso em que Habito

– Um homem se encontrava no limiar da Vida e da Morte, e diante dele, um Anjo guardava os Portões do Paraíso. ‘Pare’, ele disse, ‘só posso permitir sua entrada no Paraíso se você provar ser digno!’ O homem refletiu por instantes, ao que indagou: ‘Como saberei se esse é, de fato, o Paraíso Verdadeiro, e não uma alucinação da minha Mente?’ Neste momento, uma voz se fez ouvir por detrás dos portões, e gritava ‘Deixa ele, Guardião! Ele é um dos nossos!’

– Então… qual o signifcado?

– O Paraíso é, antes de qualquer coisa, um Estado de Consciência. Ser capaz de reconhecer a Divindade presente em toda e qualquer manifestação da Natureza é o pré-requisito básico para se atingir a Iluminação.

– Mas… e o Anjo?

– Que Anjo?

– O Guardião do Paraíso.

–  O homem é a tua alma, que como Orfeu, atravessa o limiar da Vida e da Morte em busca do próprio destino; a Voz do Paraíso é o teu Espírito, que dita, através da tua Intuição o Caminho a seguir. O Anjo é o mediador, é a tua Razão, a Psique.

– O Paraíso é qualquer lugar onde estamos plenamente conscientes?

– Não, o Paraíso é a Plena Consciência.

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Automatter

Em meio a espuma grafite das ondas que rebentavam contra os rochedos lodosos, uma cabeça de boneca se afogava, afundando sob o peso das ondas oleosas. Urubus e gaivotas carniceiras pairavam sobre a Baía de Osíris – lar dos dejetos trazidos pelos mares poluídos – enquanto o Sol brilhava fraco entre as nuvens espessas de fuligem das fábricas, que naquele momento, já não era possível saber o que produziam, nem para quem ou porque. Do alto de uma torre, um homem na faixa dos trinta anos fumava um cigarro de cravo, mais preocupado com o que fumaria quando eles acabassem, do que se ainda existia vida orgânica inteligente com a qual ele pudesse se comunicar. O pé de skunk hidropônico já secara, e as novas sementes não haviam germinado. Já encontrava dificuldades em arrumar terra fértil – cada vez mais a praia se tornava um mangue de sucata: entre a lama de petróleo e areia, encontrava-se de tudo.  O que estivesse vivo, lutava pra sobreviver, e o que estivesse morto, servia de comida pros sobreviventes. As incursões ao mangue se tornavam cada vez mais escassas. Não que elas fossem úteis para alguma coisa além de se exercitar e “ver pessoas”, como pensava, com ironia. Uma vez ele viu o cadáver do que parecia ser um rapaz de não mais que dezesseis anos. Estava nu, o corpo todo cinzento. Ficou hipnotizado por aquela figura. Aproximou-se, cutucou-o com um graveto. Nunca tinha visto um cadáver em tão boas condições. Por uma fração de segundo, pensou estar louco, quando viu a cabeça dele se mexer. Da cratera ocular, brotara uma lacraia satisfeita.

Aquela fora a sua última incursão à praia. É claro, havia também o lago, com muita terra em volta. A viagem, por ser mais longa, exigia o uso do Jipe. Mas o combustível estava quase no fim. “Eu podia ir a pé”, pensava. E pensava em outra coisa, e depois em outra. Olhava pra horta hidropônica, cada vez mais pobre. Suspirava e acendia um cigarro. Tinha medo. Nessas horas, Maia o abraçava pelas costas e dava um beijo de leve no pescoço, depois mordia o lóbulo da orelha muito suavemente, enquanto suas mãos deslizavam pela cintura rumo ao ziper. Ele fechava os olhos, ofegava, e não pensava em mais nada. Às vezes eles invertiam os papéis. Ele ficava de quatro, algemado e amordaçado, e Maia o penetrava com um strap on, enquanto lhe arranhava de tirar sangue das costas. Ele urrava, e deixava correr uma ou duas lágrimas, frutos do êxtase de prazer sem significado. Mas às vezes, uma era de desespero. Ela o desamarrava, o colocava de barriga pra cima, e o chupava vigorosamente, até ele se debater em agonia depois do orgasmo, e então ela engolia até a última gota, olhava-nos olhos, daquele jeito tão humano, vulgar e melancólico e se deitava ao lado dele. Nenhuma palavra. Ele levantava depressa e ia comer cream cracker com catchup e beber vinho barato no desjejum.

– Não gosta mais? Quer mudar?

Ela perguntava, num tom de voz impossível de situar entre a preocupação e a indiferença. Ele não respondia. Não é que se sentisse culpado. Do modo como vivia, papéis sexuais não tinham o menor significado. Assim como todo o resto. O prazer era a única coisa que dava sentido a sua existência, e a função dela era lhe dar prazer, pura e simplesmente. Ele gostava de se deitar com ela, depois do sexo, e olhá-la nos olhos. Antes, faziam como um casal: ele se deitava sobre ela, olhando-a nos olhos, e estocava vigorosamente, enquanto ela enrubescia e ofegava, quase fechando os olhos. Com o tempo, passaram a introduzir outros elementos e fazer certas brincadeiras. Ele e a amarrava na cama, deitada de bruços, e lhe batia com o cinto, até ela se debulhar em lágrimas. Às vezes ele a sufocava penetrando até o meio da garganta, enquanto ela se debatia sem ar. Mas a favorita dele, era quando ele colocava uma faca sobre sua garganta, e a fazia implorar pra que parasse, enquanto lhe rasgava as roupas e a estuprava violentamente. Sentia arrepios durante o orgasmo, e certa vez, sentiu quase como se tivesse se anulado por completo, como se tivesse sido engolido por um buraco negro para logo após ser dissolvido numa supernova. O vazio como plenitude. O peito dela subia e descia, suor escorria na testa grudando os cabelos enquanto ela sorria e o beijava, muito de leve, no pescoço. Ele a apertava com força. Era de longe o bem mais precioso que ele possuía, uma obra-prima da engenharia genética e da robótica. Mas chegava sempre o ponto em que o vazio passava a ser corrosivo. Então ele sentia ojeriza em ficar deitado com ela. Queria que ela sumisse, desaparecesse. Então ela perguntava: “Quer mudar?” e assim eles faziam sexo das muitas formas que ele podia imaginar. Quando ele não sabia o que desejava, ela logo trazia uma solução muito simples mas muito eficaz, às vezes uma pequena peça numa equação que alterava por completo o resultado. Ele a amava mais do que a si mesmo.

– Quer algo diferente? – ela mordia o lábio como uma ninfeta, e sorria. Ele contemplava o prato cheio de farelos. Sem levantar os olhos, diz:

– Vi um cadáver.

– Hum… e como ele estava?

– Inteiro, mas sem… – a imagem lhe assalta a consciência, ele esfrega o rosto. Silêncio.

– Estava desfigurado?

– Eunuco.

– Ah, coitado… – ela dá uma gargalhada juvenil.

– Você sabe que um dia eu vou morrer. Acha isso engraçado?

– Você sempre riu dos mortos que encontrava. Porque está assim agora? Me diga o que mudou em você, pra que eu possa me adequar. Não gosto de te ver assim.

Ela o olhava séria, quase em tom de súplica. Ele sente um arrepio, e arregala os olhos. Será possível? Será possível… que? Não. Ela imita as funções corporais na hora do sexo, conforme ele lhe ordena. Mas já aconteceram situações em que ele teve a impressão de vê-la demonstrando sentimentos espontâneos. Isso lhe causou um horror tamanho que sentiu enjôo. Engoliu em seco, balançou a cabeça e foi dormir sozinho. Teve sonhos nebulosos – num deles, ele era um cadáver na praia, e ela era uma gaivota que vinha lhe devorar. Noutro, ela estava grávida do Sol, e o paria na água azul cristalina do mar, para logo depois um peixe comer seu pênis.

Acordou de madrugada, um pouco antes de amanhecer. Disse-lhe que tinha uma nova ideia. Amarrou-a com lençóis dos pés a cabeça. Ela parecia feliz, o que lhe causava repugnância. Vendou seus olhos por último. Foram para a sacada, na varanda.

– O que o senhor vai fazer comigo?

Empurrou-a de cima da torre, e viu seu corpo se despedaçar sobre as rochas, tingindo a água escura com uma mancha vermelha. Olhou pra cama bagunçada. Suspirou. Abriu o último maço de cigarros.

 

“Preciso de combustível”, pensou.

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Água limpa, água suja

“Aqueles que discutem os conteúdos deverão ser evitados por todos como focos de pestilência”
Liber al vel Legis 

"Aqueles que discutem os conteúdos deverão ser evitados por todos como focos de pestilência."

É notório como o verdadeiro significado de certas histórias que nós ouvimos várias vezes tem o poder de passar quase completamente despercebido por nós. Estava me recordando hoje de manhã, a caminho do trabalho, de um conto budista. Um professor de filosofia foi ter uma audiência com um mestre zen. O mestre serviu chá para o professor. Ele encheu a xícara até transbordá-la, e continuou entornando todo o chá. “Pare”, o professor disse, “não vê que a xícara já está cheia?”. O mestre respondeu: “Como esta xícara, você também está cheio de opiniões e idéias. Como posso mostrar-lhe o Zen, sem que antes você esvazie a sua xícara?”.

Eu pensava saber claramente o significado deste koan.  Sabia, em parte. Intelectualmente, talvez. Mas a Iluminação não se alcança através da mente, do intelecto – na verdade, isto só atrapalha. É preciso interiorizar os valores, cultivar as virtudes, e para isso, só através da prática. A prática de estar atento. O primeiro passo para se tentar alcançar o estado de meditação é observar tudo. Incluindo a própria mente. Eu estava então, no ônibus, sentado na janela, contemplando um córrego poluído que liga a Tijuca ao Maracanã. Não sei o nome dele. Fiquei olhando a água escura correr, independente da imundície. Há rios piores nas grandes cidades. Este não tinha mau cheiro, e ainda tinha algo de transparente. Eu o acho bonito, apesar de tudo. Fiquei me lembrando da minha obsessão de juntar conhecimento, como se a minha vida dependesse disso. Sempre me interessei por uma gama muito específica de assuntos, e ao mesmo tempo, nunca tive paciência de me aprofundar em qualquer um deles. Cheguei em um ponto em que eu estava literalmente farto. Foi na época em que eu li O Gatilho Cósmico, provavelmente o livro mais importante da minha formação. Justamente por tratar de tudo o que me interessava e um pouco mais, em apenas 200 e poucas páginas. Durante muito tempo me incomodou o fato de que aos vinte anos eu havia chegado às mesmas conclusões (por osmose) daqueles cientistas, místicos e filósofos brilhantes que eu tanto admirava. Conclusões às quais os mesmos só chegaram depois de muitos anos de meditação, estudo e trabalho. Me incomodava porque eu estava confortavelmente certo de que estava no caminho correto – embora não soubesse claramente que caminho era esse e talvez isso só confirmasse mais ainda a minha certeza – e no entanto, eu sabia, como esses mesmos pensadores deixavam claro, que quando se acredita em alguma coisa, é difícil ou quase impossível algum progresso real, porque você passa a pensar e viver dentro de parâmetros. E não importa o quão grandiosos você ache que eles são. Então eu estava nesta encruzilhada, com a sensação de que carregava um tesouro em mãos, mas que se eu o mantivesse comigo, paradoxalmente, viraria esterco.

Estar presente o tempo todo, para mim, é um grande desafio. Principalmente durante as aulas. Desde a época da escola eu entrava na sala, sentava na cadeira e ficava absorto, quase em estado de catalepsia, sonhando acordado… quanto mais desinteressante fosse a matéria, mais fortes eram os meus pensamentos, que me arrebatavam como uma folha seca no meio de um vendaval. E isso não mudou ainda hoje, na faculdade. No primeiro ano, eu jurei a mim mesmo que estudaria Filosofia e seria um excelente professor. Isso foi logo depois da minha primeira aula de Filosofia. Os anos foram passando, e conforme as pessoas alimentavam meu ego, eu nutria a vontade de fazer mestrado e doutorado – dar aulas no Ensino Médio seria uma carreira medíocre para alguém com meu intelecto! Eu tinha que ser um filósofo, havia nascido pra isso… estava escrito na minha testa. Até que no terceiro ano (depois de uma epopéia de quatro anos e meio de devaneios inúteis) meu professor de Filosofia me fez repensar sobre a decisão de estudar Filosofia. E pela primeira vez em muitos anos, eu silenciei todas aquelas vozes que nada faziam além de massagear meu ego, e então eu esvaziei a minha xícara.

Eu não precisava estudar Filosofia para ser um filósofo, assim como também não precisava ser filósofo para dar vasão à minha ânsia de conhecimento. Então optei por um curso que me oferecesse uma área de estudos extensa e variada, ao mesmo tempo que me possibilitasse arranjar um bom emprego antes de me formar. E por isso escolhi Psicologia. E foi estudando Psicologia (ou devaneando nas salas de aula, nos corredores, no ônibus) que eu notei que não havia me livrado totalmente dos meus baús (De tesouro? Ou esterco? Não importa). Foi olhando aquele rio sujo, que mesmo estando imundo, continuava correndo, alheio ao trânsito em que eu estava retido que eu me dei conta de que, da mesma forma que o rio sujo de hoje não era o mesmo rio sujo de ontem, nem o córrego límpido e resplandecente de décadas atrás, esse mesmo rio sujo de hoje também não será o rio sujo de amanhã. E quem poderá dizer se ele estará sujo ou límpido? “Um homem não toma banho duas vezes no mesmo rio”. Só podemos afirmar, com alguma certeza, que ele continuará correndo – eu lhe sou profundamente grato por isso.

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A Doce Inocência do Materialismo

A cena é típica: a pessoa pergunta “Qual a sua religião?” e se você diz que não tem nenhuma, é bem provável que provoque risos nervosos, cause espanto ou receba uma ameaça de morte (se eu puser uma arma na sua cabeça eu quero ver se você não arruma uma rapidinho…). Se o indivíduo for um daqueles que se dizem dotados de muita fé, ele simplesmente vai inquirir, com a ansiedade de quem questiona o envolvimento de alguém num possível crime, olhando-o diretamente nos olhos: “Mas você tem , não tem?”. Se você quiser impressionar, e ainda ganhar simpatizantes diga que é agnóstico (e explique o que é isso!). Agora, se você disser que é ateu, dependendo do tom de voz e das palavras exatas que você usar, prepare-se para ouvir insultos, exclamações de horror ou qualquer outro tipo de reação histérica. A experiência nos diz que, quando algo nos faz muita falta e não conseguimos expressar conscientemente nossos sentimentos, a tendência é que desejos reprimidos venham a tona, muitas vezes para contrabalançar aqueles que se mostram na superfície. Acredito que quando uma pessoa se importa demasiadamente com a opinião das outras, isso mostra, por um lado, que ela tem sérias dificuldades de pensar por si mesma, e por outro, que deposita muita confiança em qualquer um que lhe pareça digno. A princípio, estes dois fatores parecem se influenciar mutuamente, mas vamos analisá-los separadamente.

 

Já é muito conhecido o velho estereótipo do evangélico fanático. Aqueles indivíduos desequilibrados, completamente dominados pelo Arquétipo do Profeta, que precisam alimentar seus Egos pregando a Doutrina Protestante em lugares públicos, ônibus, etc. Por algum motivo, raramente eu vejo essas pobres criaturas. O tipo de evangélico com quem eu convivi era bem diverso: onde eu moro, da avenida principal até a minha casa, conta-se algo em torno de dez igrejas evangélicas (isso não é exagero, eu contei mesmo). Eu trabalhei num mercado próximo de onde moro, durante longos três anos. Desses, dois eu passei no estacionamento, onde pude me debruçar sobre várias questões filosóficas de meu interesse, enquanto esporadicamente, alguém vinha fumar um cigarro e alguma troca de ideias era possível. Pude observar que em lugares onde a presença de igrejas é muito forte, os evangélicos não parecem sentir necessidade de afirmação. É claro que eles não toleram o ateísmo, mas por presumir que todos pensam como eles, eles simplesmente não se perguntam sobre as religiões dos outros. Eu quase me atrevo a dizer (e isso com base na minha parca observação) que eles são mais tolerantes. Mas posso estar enganado. Me envolvi em um ou outro debate, por pura diversão, porque nessa época já não via mais propósito nisso, e sempre ouvia os mesmos argumentos vazios. Também há o fato de que boa parte deles bebiam, fumavam, cheiravam e traíam suas esposas, mas não sei até que ponto isso vem ao caso.

 

Agora, a respeito da confiança nas ideias dos outros. Sempre achei estúpido o quanto os cristãos se incomodavam com os ateus. Ora, se um garoto de franja lambida e calças coloridas e apertadas me dissesse que Led Zeppelin é uma merda, eu soltaria uma gargalhada. Agora, se alguém que se diz, ou passa a ideia de ser um grande conhecedor do Rock, dissesse um disparate desses, aí sim isso me incomodaria. Mas o que muda? Porque a mesma afirmação (ou negação) provoca reações diferentes dependendo de quem ela é proferida? Pela “autoridade” que confiamos a alguém, baseada na impressão que temos dessa pessoa. Seguindo esse raciocínio, somos levados a crer que os cristãos sofrem de um complexo de inferioridade, por não conseguir vivenciar o que pregam no dia-a-dia (o que é perfeitamente natural mas os pastores parecem não se importar com isso) e vêem qualquer pessoa que tenha um pouco mais de erudição do que elas como um meio de afirmar aquilo que elas não são capazes. Lembro-me que certa vez, eu estava conversando com meus colegas e disse, displicentemente: “Isso foi na minha fase satanista”. Todos deram risada. Eles entenderam que isso era só mais uma esquisitice de minha parte, o que me tornava o estranho engraçado do grupo (papel que as relações humanas me incumbiram de aceitar). Garanto que se eu fosse da Alta Gerência, usasse roupa social e viesse num Hyundai ou numa Hillux, essa mesma afirmação faria eles se borrarem de medo na hora, e criassem um ódio mortal de mim.

 

Ao longo da minha adolescência, desde que rompi com o Catolicismo, dei início a uma longa busca pelo sentido da vida, do universo e etc. Hoje, sinto que estou no caminho certo (finalmente!) e hoje eu afirmo que acredito em Deus. Superei o agnosticismo. O que me motivou a redigir esse texto foi um fato curioso que aconteceu ontem a noite. Estava eu na faculdade, na aula mais horrível que nós temos nesse período, quando eu tirei da mochila um livro de Introdução á Psicologia Junguiana. Um rapaz com quem eu que eu havia brincado antes, torceu o nariz em tom jocoso. O que se seguiu foi uma breve conversa cômica e teatral. Arregalo os olhos:

– Você não gosta de Jung?

– Por mim podiam queimar os livros dele.

– O que você é?! – Arregalo mais ainda os olhos.

– Behaviorista clássico.

– Ah… então tudo bem! Somos de espécies diferentes, não adianta nem discutir. Se você fosse freudiano eu enfiava essa caneta na sua jugular!

 

Mais tarde, antes de dormir, eu percebi que, de alguma forma aquilo me afetou. É claro que meu conhecimento de Jung é extremamente superficial, assim como do Behaviorismo, de modo que de nada me adiantaria me envolver num debate sério. Mas mesmo que eu entendesse muito de ambos, seria perda de tempo. Os objetos de estudo de ambos são muito diferentes. A Psicologia Comportamental clássica sequer aceita a existência da mente! Mas o que eu refleti foi o seguinte: eu compreendo o valor do behaviorismo clássico, bem como da Terapia Cognitivo Comportamental (que é muito mais abrangente do que o behaviorismo ortodoxo), compreendo sua lógica e entendo que existem casos em que esse tipo de terapia é muito mais indicada. Para tratar fobias, por exemplo. Mas um behaviorista não é capaz de reconhecer o valor da Psicanálise, seja ela da linha que for. Isso me fez refletir sobre o Materialismo em geral. Eu poderia reagir como um crente imbecil e xingar ele, e dizer “como pode você não acreditar na Psique? E como você pensa, sente, sonha?” mas eu já estava num nível de consciência muito acima disso. De alguma forma, em algum ponto, a crítica dele me incomodou. A diferença é que eu transformei isso numa reflexão, e não num gatilho para descarregar todas as minhas frustrações. Mas será que todos os conflitos ideológicos se resumem a frustrações sendo projetadas uns nos outros? O que você acha?

 

Em todo caso, da minha perspectiva, é impossível não se ter a impressão de que, apesar da minha pouca bagagem cultural, eu estou num nível muito mais profundo e mais esclarecido no tocante não só a Psicologia mas a todas as coisas. Isso pode parecer arrogante, mas como você se sentiria numa tribo de índios? Eu chamava os cristãos de índios, dizia que para aprendermos a tolerá-los era preciso vê-los dessa forma. Mas hoje, vejo que esse modelo pode ser expandido pra qualquer pessoa que não aceite e sequer cogite refletir sobre as suas ideias, quando você consegue fazer isso com as dela. E isso não é arrogância, e sim tolerância. Porque você percebe que não faz sentido se descabelar, nem julgar o outro, ou muito menos ameaçá-lo de morte. Ou só de brincadeira! Eu sempre respeitei o ateísmo como um modelo valioso de busca pela verdade (é claro, muito inferior ao agnosticismo), e sempre me causou um profundo desgosto o desrespeito que é dirigido aos ateus em pleno Séc. XXI. Será que Deus, sendo Perfeito, Infinito, Inconcebível, Inefável e Absoluto se incomoda se um primata, que vive num grão de areia, não acredita n’Ele? Acaso, há o risco das pedras se esfarelarem, ou o da água evaporar se não acreditamos nelas? Que Deus é esse, tão egocêntrico que mais parece um Demônio? Da maneira como vejo as coisas hoje, o ateísmo é um importante meio de se alcançar a Deus. A partir do momento em que você faz o bem porque sabe que Deus não existe, e que você aproveita a cada segundo da sua vida porque sabe que não há vida após a morte, isso é maravilhoso! É pra isso que nós viemos pra esse Planeta. Nós somos a Consciência do Universo em processo de auto-conhecimento, daí vem a expressão “Centelha Divina”. Não importa se você acredita numa força superior, num deus pessoal (que pra mim e pros gnósticos não passa de um demônio) no design inteligente ou o que quer que seja.

 

 

 

Tolerância < Transcendência
Amor = Amor
 

 

Eis o caminho.

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