Cultura e Território

No último sábado, 23 jovens foram detidos num shopping de Guarulhos, após a polícia ser acionada. Um gerente afirmou ter visto pessoas serem pisoteadas. Uma mulher chegou a ver jovens com revólveres. Eles cantavam, em uníssono, uma música sobre maconha. Alguns lojistas fecharam as portas mais cedo. Houve pânico entre os frequentadores. No entanto, nenhuma droga foi apreendida, assim como nenhuma arma, nenhum furto foi registrado e ninguém se feriu. O encontro havia sido combinado num evento do Facebook: 10 mil inscritos, mas depois de deletado (o criador do evento disse que teve medo de que ‘sobrasse pra ele’) apenas 200 compareceram.

Quem acompanhou os títulos das reportagens sem analisar os fatos, de início, ficou chocado com a falta de segurança do país, onde nem dentro do Shopping estamos seguros, segundo alguém disse. Por outro lado, os auto-intitulados portadores do senso crítico certamente verão neste caso a demonstração explícita do racismo e do preconceito da “Elite” contra os jovens da periferia. Os 23 detidos foram liberados. Novos eventos já foram confirmados em outros shoppings. Os lojistas estão desesperados, e pedem ajuda à Secretaria de Segurança.

Muito provavelmente os haters da classe média (que paradoxalmente são em sua maioria da classe média também) terão motivos para rechaçar ainda mais a “Elite”. Num texto publicado hoje, no Estadão, o título irônico, “Funk assusta shopping” fazia uma antítese aos títulos das outras reportagens. O texto é muito elegante e sutil. Mas o que se pode compreender, após uma leitura atenta, é que a autora é partidária ou pelo menos simpática, ao pensamento de esquerda. E como boa esquerdista, tenta enxergar o mundo sob a visão distorcida do credo que segue.

O notável sociólogo Robert K. Merton, em Social Theory and Social Structure, cunhou o termo “profecia autorrealizável”, conceito que fala a respeito das atitudes e crenças que as pessoas adotam e que acabam por influenciar o comportamento delas próprias e dos demais, confirmando suas crenças a priori. Por exemplo, sabemos, ou fingimos acreditar que a “Elite” é preconceituosa, racista, odeia pobres e faz questão de frequentar lugares exclusivos. Quando um grupo de jovens de periferia decide entrar num shopping fazendo algazarra e as pessoas se sentem assustadas, é como se assinassem o seu atestado de culpa. (ainda que só descobrissem que não havia motivo para temer depois do ocorrido.) “Viu só? Os garotos não estavam fazendo nada demais e chamaram a polícia!” Se tivessem sido roubados, isso seria um outro problema, para qual também teriam uma resposta pronta. Mas como não houve crime, o pânico foi infundado, logo, foi preconceito.

Me lembro que quando foi lançado o livro Falcão – Os Meninos do Tráfico, baseado no documentário homônimo, um grupo de jovens aparentemente moradores de favela, quatro ou cinco no máximo, entraram na livraria em que eu estava, dentro do shopping mais movimentado do Rio de Janeiro. Eles vieram em silêncio em direção aos livros mais vendidos. Um deles tomou um exemplar do livro e os outros se amontoaram atrás das suas costas e espiavam, sobre seus ombros, cheios de reverência um livro que falava sobre a realidade que eles conheciam de perto, contada por alguém que falava a mesma língua que eles. Eu fiquei bastante tocado com aquela cena, e pensei como seria maravilhoso se um vendedor viesse falar com eles e deixasse-os à vontade, sentados no sofá. Mas não, isso seria querer demais. Já não foram expulsos e nem causaram tumulto. O que está de bom tamanho.

Mas é interessante traçarmos aqui um paralelo entre as duas situações: de um lado, centenas de jovens pobres com roupas de marca entrando juntos em um shopping assustando as pessoas; e do outro, meia dúzia de pobres, mal vestidos, entrando provavelmente pela primeira vez numa livraria. Muito se discute sobre o que fazer para combater a pobreza e melhorar a educação do país. Chegam a defender que a primeira é a consequencia da falta da segunda. O problema é que o discurso foi monopolizado pela esquerda e distorcido pela dicotomia mesquinha que alça os brancos esquerdistas intelectuais como os guardiães de tudo o que há de mais belo e nobre na humanidade, o povo como uma donzela em apuros, e os poucos gatos pingados que ousam pensar fora da cartilha esquerdista, são tratados como dragões gigantescos e furiosos.

São esses nobres paladinos que, curiosamente, defendem com unhas e dentes o funk como uma expressão cultural legítima ao mesmo tempo em que não tem pudores em criticar as boates que a “Elite” costuma frequentar. Esta síndrome de Golias faz parecer que tudo o que é do pobre, da camada vulnerável da sociedade, pertence à categoria do belo, nobre e justo, e tudo o que vem da classe média (que no Brasil não é tão rica assim…) é fútil, mesquinho e fugaz. Assim, se um comediante branco faz uma piada, ele deve ser julgado e condenado à prisão, porque as risadas que ele provoca estão diretamente relacionadas à onda de crimes. Mas se um traficante negro canta uma música sobre estupros ou assassinatos, não nos cabe julgá-lo, afinal, ele está falando sobre a realidade em que vive, na linguagem que  entende, e tolher isso seria elitismo.

Enquanto isso, milhares de jovens de favelas e periferias do Brasil gastam seus poucos salários com coisas inúteis e tentam ser aceitos por um construto (a sociedade) criado e alimentado por uma elite pseudo-intelectual que distorce os fatos e os pinta com rancor e revanchismo, na tentativa de instaurar a luta de classes (se ela não existe, alguém tem que criá-la!).

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Sobre Ākāśagarbha

"Uma pessoa medianamente sã haveria de perguntar: qual a vantagem do pessimismo? Ora, eu sou um psicólogo, e antes disso, um aprendiz de filósofo - pertenço àquela classe de homens que não podem se dar ao luxo de ser otimistas. Meu trabalho é perscrutar os abismos da alma humana, por isso eu busco solo árido para semear. Esperar sempre o pior da vida - e então, tentar extrair o melhor com o mínimo disponível. Acaso, há outra maneira para se testar a qualidade de uma semente?"
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